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quarta-feira, 22 de abril de 2020

A variedade não padrão


       Leia este breve diálogo entre um paí e um filho adolescente:

– Filhão, você anda meio desligado; precisa encarar com mais seriedade os estudos, senão, no fim do ano, você vai se dar mal.
– É mesmo, pai... tem razão... Eu só tava sando um tempo; agora vou pegar firme, porque não quero passar sufoco que nem ano passado.


Nesse texto, a situação de comunicação é informal – um bate-papo entre pai e filho –, por isso os dois interlocutores fazem uso de uma variedade linguística denominada não padrão, coloquial ou coloquial-popular. Essa variedade, empregada pela maioria absoluta das pessoas em suas relações sociais do dia a dia, caracteriza-se pela despreocupação dos falantes com as inúmeras regras da gramática normativa – emprego de plurais, de concordâncias, de flexão dos verbos etc. – e pela presença frequente de expressões populares, de frases feias e de gírias. Fazendo uso da variedade coloquial é que nos comunicamos de maneira espontânea e informal com nossos familiares, vizinhos, colegas e amigos.



terça-feira, 21 de abril de 2020

As variações da língua padrão: língua culta formal e língua culta informal


O trecho abaixo, extraído de uma entrevista dada por um psicóloga, exemplifica o emprego da variedade padrão em sua modalidade formal (língua culta formal). Leia-o.

Como você pode notar, a socióloga, em seu discurso, optou pelo emprego de frases mais longas, por ordenações pouco comuns das palavras e por um vocabulário mais elaborado e especifico, adequando assim seu “modo de falar” à situação de comunicação: uma entrevista tratando de um tema relacionado à profissão dela.

Isso não significa que, quando usamos a variedade padrão, somos obrigados a empregar um vocabulário mais “difícil” e frases “complicadas”. Dentro da própria variedade padrão existe a possibilidade de adequarmos nosso nível de linguagem, isto é, podemos falar/escrever de maneira mais formal ou menos formal, dependendo do contexto em que se realiza o ato de comunicação. A respeito desse aspecto da língua culta, leia este texto:



A língua culta formal, pode ser empregada quase que exclusivamente na escrita, é mais “fixa” ao longo do tempo, ou seja, modifica-se menos que a língua culta informal, que se usa mais na comunicação falada.
Um exemplo dessa diferença: a gramática normativa propõe, para o padrão culto, as formas: eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos, vós ides, eles vão, no entanto, na maior parte do Brasil, a língua culta falada emprega eu vou, ele/você/ a gente vai, nós vamos, vocês/eles vão.
É nesse português, distanciando da tradição, que apresentados os noticiários de rádio e TV, que são compostas, em sua maioria, as músicas populares, que os professores dão nas aulas; é esse português que acaba também sendo empregado nos textos escritos cotidianos (jornais, revistas, anúncios publicitários etc.)
                                       Fonte de pesquisa: TRANSK, R.L. Dicionário de linguagem e linguística.
                              Tradução e adaptação: Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p .327.




segunda-feira, 20 de abril de 2020

Variedades linguísticas


A variedade padrão

Vimos que a gramática normativa considera “correta” a construção “Com licença, o que vocês estão fazendo?” e “incorreta” a construção “Cum licença, o que oceis tá fazeno?”. Mas... se essas duas “formas de dizer” exprimem a mesma ideia, se qualquer falante do idioma pode compreendê-las perfeitamente, por que a gramática normativa só aceita como correta a primeira construção? Afinal, que critérios são empregados para definir o que é “certo” e o que é “errado” na língua?
Os parâmetros e regras que determinam a norma (padrões de uso) da língua portuguesa foram sendo estabelecidos e fixados ao longo do tempo, principalmente pela ação de dois instrumentos sociais: a escola e os meios de comunicação (livros, jornais, revistas, noticiários de rádio e TV etc.) Convém lembrar que, antigamente, frequentar a escola e compara livros e jornais eram privilégios de poucos, ou, como se diz popularmente, eram “coisas de rico”.
A escola e os meios de comunicação sempre consideram modelar – digna de ser imitada – a variedade linguística da classe social formada pelos falantes de maior prestigio social (maior nível de escolaridade, maior influência política, mais poder econômico). Essa variedade, chamada de variedade padrão, serviu de base para a elaboração das gramáticas normativas e , aos poucos, foi sendo imposta aos falantes de todas as classes sociais como o “modelo ideal” de língua, como o “padrão” a ser seguido para falar ou escrever “corretamente” o português.
A variedade padrão – também chamada de língua padrão, norma urbana de prestígio ou língua culta formal – tem emprego em situações muito especificas e é usada principalmente na escrita. Os documentos oficiais (leis, sentenças judiciais etc.), os relatórios e livros científicos, os contratos empresariais, os discursos em determinadas situações sociais, as solicitações de emprego etc. são exemplos de textos em que essa variedade linguística é usualmente empregada.

sábado, 18 de abril de 2020

A outra gramática



Vamos comparar estas duas formas de construção de uma mesma frase:



Sem dúvida, as duas formas dizem a mesma coisa; ambas são absolutamente compreensíveis para falantes da língua portuguesa. A única diferença entre ela é que a construção 2, além de ter sido estruturado de acordo com a gramática (sistema de funcionamento) da língua, foi também construída segundo as regras de uma “outra” gramática, chamada de gramática normativa
A gramática normativa é um conjunto de regras de orientações e regras que estabelece seus critérios de “certo” e “errado” baseando-se na maneira como o idioma vem sendo empregado, ao longo do tempo, por usuários considerados, na perspectiva dessa gramática, falantes “exemplares” da língua: escritores consagrados, gramáticos tradicionais, juristas, jornalistas influentes e outros intelectuais.
Assim, frases como “Cum licença, o que oceis tá fazeno?”,  “Nóis pega uma mula e sorta ela. “e” Nóis quebra o gaio com uns engenheiro.” São corretas do ponto de vista linguístico, mas são consideradas incorretas na perspectiva da gramática normativa, uma vez que não se enquadram nas regras – padrões tradicionais de uso – propostas por essa gramática.
Existem, portanto, duas gramáticas, que podemos definir assim: 



Então, se considerarmos, nessas duas perspectivas de análise, as duas formas de construir a frase apresentadas, teremos:

  • na perspectiva da gramática internalizada → certo
  • na perspectiva da gramática normativa → errado


  • na perspectiva da gramática internalizada → certo
  • na perspectiva da gramática normativa → certo






quarta-feira, 22 de maio de 2019

Introdução a gramática



Já faz alguns anos; por isso, você provavelmente não se lembra de que, algum tempo depois de iniciada sua vida escolar, um de seus professores do Ensino Fundamental apresentou à “gramática”. A partir daí, todos os seus professores de Língua Portuguesa foram, pouco a pouco, tentando lhe ensinar as “regras gramaticais”.
Esse processo pode ter-se desenvolvido por meio de diferentes métodos de ensino, mas aconteceu com você e com todos que frequentam ou já frequentaram a escola.
É por isso que, se perguntarmos a qualquer pessoa o que é “gramatica”, ela responderá, meio em tom de brincadeira: é uma coleção imensa de regras que eu nunca consegui.”, ou dirá: é um livro que ensina as regras de português.” Se também perguntarmos a uma pessoa quantas regras de gramática ela conhece, as respostas serão mais ou menos assim: “Nenhuma.”, “Umas duas ou três.”, “ No máximo, uma meia dúzia.”
E você? Quantas regras de gramática acha que sabe?
Não se surpreenda, mas, com certeza, você domina mais de mil regras gramaticais. É isso mesmo: mais de mil! Talvez até muito mais... umas 1500!


A gramática da língua
Leia este pequeno texto humorístico.

Especialistas
Um caboclo, vendo uma movimentação de homens e equipamentos perto do sitiozinho onde ele morava, vai até lá e pergunta a um deles:
– Cum licença, moço, o que oceis tá fazeno?
– Aqui vai passar uma rodovia – responde o homem – e nós somos os engenheiros e técnicos. Com esses equipamentos nós vamos definir por onde a estrada vai passar.
– Oia, moço, o senhor vai discurpá, mais aqui no sertão nóis faiz estrada de outro jeito.  Nóis pega uma mula e sorta ela. Onde ela passá... aí é o mió de abri a estrada. Num tem erro!
O engenheiro, achando graça na simplicidade do capiau, diz, sorrindo:
– É mesmo? Não me diga! Mas... e se vocês não tiverem uma mula?
E o caipira:
– Ué... aí nóis quebra o gaio com uns engenhero... (Texto do domínio público)
 .

Agora responda, oralmente: qual dos dois personagens dessa piadinha fala bem português e domina a gramática? Perguntando de outra forma: qual deles você acha que fala “certo” e qual fala “errada”?
Se fizéssemos essas perguntas a diferentes falantes do português , quase todos afirmariam que só o engenheiro sabe o idioma, pois ele fala “corretamente”. Essas pessoas também diriam que o caboclo não conhece gramática, por isso fala “errado” Haveria até opiniões preconceituosas, tais como: “Ele fala de um jeito feio”. Opiniões desse tipo são o resultado de uma confusão que normalmente ocorre entre línguagramática e gramática normativa.
Na realidade, o caboclo da historinha sabe – e muito bem ­– falar português, tanto é que ele conversou com o engenheiro e os dois se entenderam perfeitamente. E que língua ele usou para se comunicar? A língua portuguesa, é claro. Como todo falante de um idioma, ele se expressou empregando uma “forma de falar” que está acostumado a usar em dia a dia.
Mas... e quanto a gramática?
Afinal, o personagem sabe ou não sabe gramática?
Para refletirmos a respeito dessa pergunta, vamos retomar este trecho da fala dele.



É claro que o personagem, usando essas mesmas palavras, poderia ter escolhido outras maneiras de construir a frase. Assim, por exemplo:



Mas, certamente, ele não usaria, as palavras numa ordem como esta:


E por que ele jamais falaria assim?
Ele não ordenaria as palavras dessa maneira porque, desde que nasceu e começou a ouvir e, depois, a falar, ele foi internalizando, isto é, foi aprendendo, na pratica, que sequências como essa não são válidas no português, não respeitam o sistema de funcionamento da língua portuguesa.
          É esse sistema de funcionamento que recebe o nome de gramática da língua, e é pela prática diária, como falantes e ouvintes, que todos nós assimilamos, internalizamos o conjunto das mais de mil (talvez 1500) regras que regulam o funcionamento de nosso idioma.
      Nosso conhecimento prático, como falantes do português, permite-nos, então, estabelecer uma clara diferença entre “Cum licença, moço, o que oceis tá fazeno?” e “*Tá cum, moço, o que o fazeno licença oceis?” Assim: